Toda a garotada, na década 40/50, sabia construir a felicidade!...
Não tinham um tostão no bolso, mas eram os donos da rua e da cidade.
Não tinham fartura à mesa, mas tinham fartura de amigos.
Tinham as mãos vazias de brinquedos, mas a cabeça estava cheia de imaginação e de espírito de luta.
A leitura da revista “O Cavaleiro Andante” alimentava “na malta” o desejo de partilhar aventuras. As guerras medievais representadas em banda desenhada eram interiorizadas por todos os que se reuniam no Beco dos Dias (travessa Ivens), vindos da R. Baleizão (1º de Maio), R. Filipe Alistão, R. Capitão Mor, R. do Prior, Travessa José Coelho, R. e Travessa de S. Pedro, R. do Compromisso, R. Conselheiro Bívar…
Os modelos representados nas revistas levavam-nos ao delírio…
Em conjunto, começaram a construir armas de defesa e ataque (espadas e fisgas de madeira), “sticks” para jogos de hóquei sem patins e a viver brincadeiras de verdadeiros cavaleiros andantes.
Nas noites de Verão treinavam-se para a guerra em lutas de amigos, escondendo-se aos cantos da rua, prendendo, matando e salvando amigos e inimigos.
Mais tarde surgem as pistolas muito bem limadas e enfeitadas.
- “PUM…pum…”mati-te”… Se não morres, não brinco!!!!!!!!”
Treinavam-se para guerras reais existentes entre os moços dos bairros da cidade.
Os inimigos/rivais eram vários…
Os de S. Francisco, os do Pé da Cruz e os do Bairro da Lata implicavam com o grupo dos Dias (Agência funerária), mas os mais ferozes, os que mais se atreviam a provocações de espadeirada, pedrada e insultos, eram os que viviam para os lados do Bom João.
A guerra declarada e sem fim à vista era constante. Vindos de longe, atreviam-se nos domínios do Beco provocando, descaradamente, sem medo e muito arrojo.
Quando perseguidos, refugiavam-se no seu local de residência, na varanda de uma velha casa, cor de tijolo, que parecia uma fortaleza inexpugnável…
No Beco, armados em heróis resolveram pôr fim às provocações.
Lançaram-se na ideia louca de construir um canhão!...
Imaginação não faltava e o material foi surgindo trazido por todos, unidos num único objectivo – “Vencer a batalha”.
Conseguiram moldar um canhão utilizando latas que iam soldando umas às outras, baseados nas gravuras da banda desenhada. Fizeram um estrado com rodas para o poder transportar e concluída a obra, treinaram-se para o ataque ao Bom João.
O Dominguinhos Dias, comandante, colocou a infantaria à frente munida de espadas e atrás a tropa do canhão. Percorreram quase toda a cidade atraindo moços que se juntaram ao exército, formando outro exército de curiosos a acompanhá-los.
Ao chegarem ao local de luta, encontram o inimigo refugiado na fortaleza, de olhos esbugalhados de espanto perante aquele cenário… A vantagem era do Bom João. Tinham a seus pés, em baixo, um alvo fácil de vencer. Mas a curiosidade dominou-os; esquecidos de atacar, observavam desviando-se das pedradas que já caíam sobre eles.
A expectativa atinge o rubro quando o canhão atestado e bem posicionado se prepara para o ataque.
Inicia-se a luta com gritaria ensurdecedora dos sitiados, dos atacantes e dos apoiantes/assistentes, enquanto os do canhão esticam as molas de um velho divã e fazem pontaria!...
Azar dos azares!...
As molas, com os treinos, tinham enfraquecido e os lançamentos curtos em altura, não atingiam o alvo!...
Em desespero de causa, prevendo a derrota, a humilhação e a perda do seu “cavalo de guerra”, um deles agarra numa pedra, enfia-a numa chamada “poita humana” e lança-a ao adversário.
Os colegas de infortúnio, embora enojados, imitam-no e encontram bastante material de arremesso. Em pouco tempo as paredes da casa pintadas de manchas escuras e mal cheirosas provocaram um silêncio de morte formado perante o insólito da situação!!!!!!!
A vizinhança adulta apercebe-se de que algo inédito se passa!
Milagre?!
Confusão!?
Os rapazes aproveitam, agarram no cavalo de guerra e retornam a casa.
A chegada não foi triunfal…podemos imaginá-la!
Murchos, fedorentos e tendo de ouvir os pais, engoliram todo o desespero de uma guerra que não foi ganha nem perdida…
Naquele tempo a escola era rígida. A matéria era dada de maneira árida, cortando toda a hipótese de se poder alterar, ou imaginar outro conteúdo.
Era assim como o mestre falava…e mais nada a acrescentar!
O ensino baseava-se na memória, na recitação pura e na convenção.
Falava-se e trabalhava-se o fundamental ensinando-se a operar com números, sem a preocupação do raciocínio. Valorizava-se o erro da conta e desvalorizava-se a importância de se saber pensar…
Este ambiente levava a que muitas crianças procurassem realizar-se abusando de experiências inconvenientes.
Talvez por este motivo, os rapazes dos diferentes bairros de Faro, e estes do Beco, dos quais venho falando, que na actualidade se reúnem, periodicamente, para recordar os tempos idos e se intitulam a “Malta do berlinde”, durante muito tempo fizessem “das suas!!!!!!”
Construíam carrinhos de rolamentos e deslizavam pela rua em correrias loucas, ensurdecendo toda a vizinhança. Compravam no Cunha do ferro velho os rolamentos a quinze tostões o par, e a Agência Dias fornecia o resto do material.
Dos carrinhos para patins foi um curto passo de distância. Entusiasmados com a ideia, lançam-se ao trabalho, utilizando quatro rodas em cada pé assentes numa tábua que seria amarrada à perna.
Na casa do Zé Quintalão realizaram as construções, disputando entre eles a qualidade e eficiência do trabalho.
O Veríssimo foi o primeiro a concluir e a reunir, vitorioso, toda a malta na expectativa do sucesso. Patins presos às pernas, impulso dado para o arranque e… grande “estardalhaço”… no meio do chão!
O peso dos sapatos rolantes era de tal ordem, que não conseguiam erguer os pés!...
Apesar dos constantes fracassos, não desistiam.
Na época estava na moda o Charles Atlas e os pesos e alteres.
De imediato, desta vez no quintal do Alex que pegava com o restaurante Baía, iniciaram-se a construir alteres e pesos.
Adquirido o material necessário, tubos, moldes, areia, cimento, passam à execução. Ao finalizar a obra falta-lhes um pouco de areia mas sem possibilidade de a conseguir, jogam mão à serradura do gato e concluem o trabalho.
Tempos de ansiedade enquanto o cimento secava…Já sentiam, dentro deles, o efeito que os exercícios recomendados haviam de fazer!...
A estreia foi inédita, com areia e serradura mal cheirosa a cair-lhes na cabeça cada vez que elevavam os alteres!
Vida sã a destes RAPAZES!!!!!!!!!!!!!!
Lina Vedes – crónica do meu 2º livro publicado – FARO -retratos “à la minuta”