“Existe a quase inerente tendência dos museus ao ar livre (a cidade histórica, ou os sítios arqueológicos) para evoluírem no sentido de uma Dysneylândia. Isto já não se trata de preservação da história do presente, mas antes a projecção da fantasia nos objectos do passado, o que é uma variedade especial de falsificação.”
Philippot
Agora percebe-se, em toda a sua extensão, o plano urdido pelos senhores que congeminaram a remodelação da igreja da Sé e da sua envolvência: a criação de um parque temático histórico, tendo como principal estrela a igreja da Sé!
Aqueles senhores, em perfeita sintonia com a dinâmica tecnocrata provinciana que domina o país, concretizaram no largo da Sé, num arremedo de modernidade, uma intervenção de expressão “high tech”, rejuvenescendo aquele arcaico largo e tornando-o mais condicente com os actuais tempos de apoteose civilizacional.
Depois de devidamente abonecada com vívidas cornijas ornamentais, pedras à vista e paredes de uma alva lisura farmacêutica, a Igreja da Sé está pronta para protagonizar o inominável espectáculo sob as luzes cinematográficas dos potentes holofotes que se impõem esculturais a todo o espaço do largo.
Com o seu design arrojado, rivalizando em dimensão (e seguramente em potência voltaica), com os postes de iluminação do estádio da Luz, ou do aeroporto, o novo sistema de iluminação está pronto para começar a animar os farenses e forasteiros com o brilho coruscante das toneladas de fotões embatendo nas lixiviadas paredes para o caso cuidadosamente preparadas.
Em 1967 Guy Debord escreveu um livro visionário, “A sociedade do espectáculo”, em que descreve a sociedade contemporânea onde o espectáculo se sobrepôs à vida humana, isto é ao real.
Esta tendência tem vindo a progredir de forma acelerada criando uma legião universal de consumidores standard e onde a mercadoria é o próprio espectáculo.
A catadupa frenética de objectos, estímulos e informação a que hoje estamos sujeitos, obriga-nos a uma existência excitada (e stressante), única panaceia, contudo, para ocultar o vazio existencial de quem deixou de saber sentir à sua volta a sensorialidade delicada do mundo natural (o real).
E esta dinâmica avassaladora, não só se apropria do tempo presente e das suas realizações, como também invade lugares, símbolos e memórias de um tempo que se pautava por uma mundividência radicalmente diferente.
A colocação de tais holofotes no coração do centro histórico de Faro, é um exemplo acabado da expressão de tal dinâmica que, não satisfeita por imperar nos mais diversos interstícios da nossa sociedade, invade sem escrúpulos, lugares simbólicos que ainda vibram numa frequência tranquila.
Durante o dia a visão dos holofotes é uma experiência dolorosa, já que a sua dimensão avassaladora altera de forma dramática a leitura visual do Largo da Sé, comprometendo as suas características estilísticas originais.
À noite, arrastando consigo a arrogância da tecnologia saloia, vai instaurar na cidade velha o domínio do “espectáculo de luz e som”, dos efeitos especiais, da “ Las Vegas by night”.
A Sé é um monumento intemporal e sagrado, que não pode ser desvelada no seu pudor com a violência dos novos mercadores do templo.
Deixem a penumbra e o mistério fazer parte da envolvência nocturna da Sé! (Os monumentos devem ser iluminados mas com sobriedade).
Não estilhacem a sintonia histórica do lugar!
Não sequestrem a noite!
“À noite ordenham luas nos terraços,
Dão leite à sombra. Abrolham os perfumes.
Silêncio. Só de um lírio ouvem-se os passos.
Madruga a pesca, rompe um mar de lumes.”
Natália Correia
Fernando Silva Grade



















































