
Sanatório do Caramulo
O Jaime adoece com tuberculose e vai para um Sanatório, no Caramulo, com três anos de idade, em 1943.
Ele recorda factos soltos, como o ter apertado o pescoço com uma guita que o levou quase ao enforcamento, o ser picado no dedo por uma abelha e o dormir todas as tardes numa marquise, cheia de camas, viradas para o sol e ter de se tapar com uma manta até ao pescoço.
São acontecimentos soltos da vida de uma criança hospitalizada num sanatório, muito longe de casa, entre os 3 e os 5 anos de idade.
Estava doente, tinha sido retirado do seio familiar, vivia com outros doentes da mesma idade, todos sujeitos a tratamentos rigorosos, que os obrigava a privações elementares.
A vida era monótona, os utentes infantis não podiam saltar e pular em liberdade. Era uma carência absoluta de amor, de exercícios lúdicos, a vida direccionada para uma alimentação eficaz, muito repouso e nada de excitações. Tudo tinha de decorrer “sem ondas”, numa calmaria cansativa, desgastante e desmotivante.
O Jaime, até aos três anos, no seio familiar, havia criado confiança e segurança emocional. Tinha a mãe como garantia que lhe abria espaço para um desenvolvimento intenso, numa aprendizagem tumultuosa, própria para o seu nível etário.
A doença e a consequente separação, com um corte radical, foi um desafio traumático, aos três anos de idade.
Toda a falência de afecto, a falta do contacto corporal materno, a privação de toda a estimulação e exploração, originaram dificuldades a nível da relação com o meio e com o próprio corpo.
Sentiu a ausência súbita da mãe, carregou essa perda significativa e ganhou, inevitavelmente, um vazio no seu mundo interior.
As enfermeiras do Sanatório, espanholas, trabalhando rotativamente, não permitiam uma ligação forte e afectiva. As crianças mais pareciam “filhos de ninguém”. Eram freiras canalizando a relação na vertente religiosa/fanática.
Quando aos 5 anos chegou a casa, sabia imensas orações e dizia-as, frequentemente e em espanhol.
Chegou esquecido do que havia vivido no passado.
A mãe dorida, ao mais alto grau, não conseguiu preparar-se (nem sabia dessa necessidade), para dominar toda a ansiedade, relativamente à separação, à doença e ao regresso do filho.
O Jaime saiu da gaiola da instituição e passou para outra, com grades douradas, rodeado de cuidados exagerados, de afectos impostos, absorventes, abafantes, limitativos. Tinha de preencher as necessidades sofridas e sentidas pela mãe. Foi um processo que não podia ser de outra maneira.
A própria mãe estava doente. Esqueceu tudo que a rodeava, ficou só o filho. A vida dele continuava habitada pela solidão, pelo tédio, pelo egoísmo e pelos instintos não sublimados.
Cresceu, sarou da doença, mas dentro dele não tinha despertado o interesse pela descoberta do mundo, fora da sua gaiola dourada, não criara capacidades para desenvolver a sua própria identidade e reforçar a auto estima.
A mãe dizia:
- Jaime senta-te à porta da rua e não saias de lá.
O Jaime obedecia, ficava olhando os outros que brincavam. Nada o levava à desobediência, porque não tinha motivação, o interesse não despertara.
Aos seis anos foi para a escola e o contacto com colegas foi prematuro e repentino. Do paraíso fechado em que vivia foi transportado para um mundo desconhecido sem qualquer tipo de preparação.
Um dia chega a casa, completamente desconcertado, gritando:
- Mãe, os meninos dizem que os bebés nascem das barrigas!
Foi um choque para ele e para a mãe, que teve de enfrentar o problema e esclarecê-lo como sabia, aliviando e mascarando a realidade, o mais possível (sexo era “tabu” no seio familiar) …
Continuou a ouvir as inevitáveis conversas dos colegas de escola, que transformavam o natural em actos vergonhosos e imorais.
As revelações foram súbitas, as verdades reveladas, brutalmente, atingiram em cheio, a estrutura criada pela mãe. O Jaime ficou ferido, profundamente, dividido entre o seu mundo fechado e o mundo, completamente desconhecido para ele, que se abria a seus pés.
Nasceu nele uma curiosidade doentia que o levou a cortar as grades da gaiola.
Levou meses, absorto, olhando para dentro de si, indiferente às conversas da mãe, gozado pelos colegas, até que surgiu algum equilíbrio, mas muito desorganizado…
Partiu para a rua, e o Jaime que ficava horas a fio, sentado a ver as brincadeiras dos outros, passou a fazer parte delas, num exagero doentio. Chegou, num mês, a estragar dois pares de sapatos, a jogar à bola, partindo vidros de janelas, chegando tarde a casa, sem respeitar horários, provocando a ira do pai, que esquecido pela mãe, vingava nele, esse abandono.
Teve início uma guerra feroz, cruel, incontável. Esse pai passou a perseguir o filho, procurando razões, que este lhe oferecia de bandeja. Batia-lhe ferozmente, martirizava-o, numa atitude inconsciente e insensível, visando o sofrimento que o facto causava à mãe.
O Jaime nunca enfrentou o pai, sofria, chorava, engolia…
Foi a vida de uma criança.
Amargamente, penso que todas as crianças, na hora do nascimento, deviam ter como lei
“Tens de ser FELIZ”
Lina Vedes – 05/02/2008
4 comentários:
Vi, vivi e conheci tantos Jaimes...
"In"felizmente sobrevivi, tentei esquecer.
Outros não.
NOVAMENTE, É UM PRAZER
LER OS SEUS ARTIGOS
PARABÉNS ! ! !
ACORDA FARO
J. Pelica
Cheguei aqui via outro blogue que a citou.
Simplesmente linda a mensagem se não fosse tão trágica a vida destas crianças, a as suas doenças.
O Mundo é das crianças, que os adultos não sabem respeitar.
Bem haja!!
Abraço amizade e continue.
Carlos Caria
Olá Lina,
Estou a fazer uma pesquisa sobre os sanatórios que existem em Portugal, e permanecem ao abandono. Mas mais do que os espaços, procuro o contacto com as suas histórias, os testemunhos das pessoas. Poderei identificar-me num email mais específico se quiser. Sou jornalista, e para mim seria importante chegar a estas vozes.
O meu email é diana_sgomez@hotmail.com.
Bom trabalho.
Diana Gomez
Enviar um comentário