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ADF pediu ao
arqº Vitor Cantinho a sua opinião relativa à
Baixa de Faro (a revitalização da zona histórica, comercial e nocturna), ao Café Aliança e à relação da cidade com a Ria Formosa. Quisemos também ouvi-lo, na qualidade de ensaísta, sobre as últimas investigações ao
Movimento Futurista que contou com a presença do
pintor algarvio Carlos Porfírio nas suas fileiras.
As respostas a todas as perguntas que lhe colocámos no texto abaixo, escrito pelo próprio.
Citamos:
UM PASSEIO DO PINTOR CARLOS PORFÍRIO, A FARO
-“ 2010 ODISSEIA NO ESPAÇO ”-
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Venho do bando dos esquecidos na Barca que foi esperança embriagar a minha alma que se esguia até ao roxo do meu Sonho »
(“Horas de Febre”) Nesso
A 29 de Março de 2010 faço precisamente 115 anos e, apraz-me deambular pela rua onde nasci, parada no tempo com todas as suas “secretas” casinhas térreas. O meu projecto etnográfico também caberia neste espaço, não fosse o mau estado de conservação, das casas destelhadas, e as paredes manchadas de humidade, salitre e “grafiti”. Descobri o meu “berço” emparedado numa transversal à estrada de S. Brás, aos pés da Igreja do Carmo. Daria apenas para cenário do meu “terceiro” filme “conservacionista”, não fosse ter visto o “Second life” “rodado” no interior do Teatro “Lethes”, cujas paredes e tectos o meu pai pintou e decorou com o meu apoio. Esta antiga igreja jesuíta remodelada, celebra ainda hoje outras “Cenas” mais espectaculares e, para o efeito, o “proscénio” alterou-se. O ambiente futurista nas imagens do filme, apresentam numa das acções, uma encenação com raios “laser” e, fumegantes efeitos luminotécnicos que me encantaram. Fez-me lembrar alguns dos meus quadros de pintura. O Dr. Justino Cúmano mantém a sua casa de espectáculos de forma exemplar, isto também porque a antiga abóbada está hoje finalmente bem consolidada.
Entrei depois pela “Baixa” no Café “Aliança”, digamos que “reanimado”. Serviram-me um bife tenro à “Aliança” simplesmente bem “passado” e com muita pimenta e, ainda de elegantes empregados trajados a rigor. A atmosfera agradou-me mas, acima de tudo, o poder ter contemplado uma antiga pintura figurativa ao lado de outra com a “esfinge” do Sr. José Pedro da Silva e pintada pelo Sidónio, junto com os demais artistas farenses. Parecia uma Galeria de quadros à moda da “Brasileira” em Lisboa, lembram-se?.
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A Cor Nua da jarra deste café está a vencer a minha atenção
OH! Como eu desejaria confundir-me em espasmos da mesma Cor! »
(“Orientes”) Nesso
O café, por fim, fui tomá-lo na esplanada exterior no antigo “Passeio do Bacalhau”. Decorria no “Coreto” um ensaio de “Jazz”, e como aprecio esse género de música do meu tempo de juventude. Nunca vi tanta gente junta, parecia a concentração dos “futuristas” do “Moto-clube”, e longe da “deserta invernia” farense onde não se vê “ninguém”.No regresso a casa, fui espreitar novamente o “Museu do Design e da Moda” (ainda não sei bem porque não lhe chamam apenas “do Desenho”), estrangeirismos. E neste espaço, do “novíssimo” B.N.U. à Rua de Santo António, encontrei-o hoje todo remodelado à maneira “antiga” e a respeitar a métrica das fachadas clássicas. Aprovava mais o ar “Futurista” do anterior edifício moderno. Vi no seu interior alguns dos meus quadros “impressionistas/futuristas” que se recuperaram, e que já não sabia do seu paradeiro. A minha colecção de pintura mais “nova” e provinciana sobre a “Faina” dos pescadores e as “Festas Populares” também estão presentes numa imensa sala para o efeito, e dizem-me que tem a ver com a moda nos seus vários aspectos “históricos”. Não concordo. As “Mouras Encantadas”, essas sim foram parar a S. Brás de Alportel e querem atribuir o meu nome ao também novíssimo “Museu Etnográfico”. Já me contento em saber que finalmente foi reconhecida a minha vasta obra modernista espalhada pelo “mundo” europeu.
Fiquei espantado com o desaparecimento do provecto “Museu da Marinha” na “Cidade Velha”, curiosamente também antes se situava à rua de Santo António. Hoje, foi substituído pelo “Museu de Arte Sacra”, ocupando o Paço Episcopal. Apraz-me no entanto, ver o meu quadro da “Mãe Soberana” numa única sala, pintura que não encontrei ainda solução para apor um movimento cadenciado, para além do natural efeito intuitivo e bem próprio do andor. Acho que perdi a veia da “velha” técnica pictórica “futurista”. Ah! a Beleza-Movimento.
O antigo “Forum” romano, esse está a ser preparado para os mais animados serões de concertos no órgão da Sé, programados para as “Três noites de verão”, vão até montar um “ecran” panorâmico para reproduzir imagens no exterior dos organistas, juntam-se-lhes três soberbos corais. Receio que o coro alto da “Velha” Igreja de “Santa Maria” não acondicione tantos coristas. Os vários agrupamentos de artistas esgotaram o “maior” hotel da cidade mesmo em frente ao “jardim Bívar”, e alguns até tiveram de ficar na “Pousada” de Estoi.
Finalmente gostaria de endereçar a minha grande “paixão” pela Ria Formosa e pela Ilha de Faro, por onde “deambulei” no início deste verão e, atravessadas nos longos passeios a pé e ao longo da nova ponte pedonal e “ciclável”. Espantosamente coincidem no essencial, com o antigo projecto traçado pelo Eng. Sande Lemos. No meu último passeio lembro-me que ainda apanhei aquela invernia de finais de tarde que tardam a passar.
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Recordo o meu querido companheiro de projectos,
E Hoje vê-lo…»
(“Horas de Febre”) Nesso
Carlos Filipe Porfírio, Pintor e tudo…