Ricardo Borges da Costa Barradas é natural de Lisboa e nasceu a 3 de Fevereiro de 1979.
É Professor de Educação Física graduado pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias - Lisboa e Mestre em Treino de Alto rendimento em desportos Colectivos pelo INEF da Catalunha – Barcelona desde 2007.
Actualmente dedica-se a tempo inteiro à Natura Algarve onde desempenha o cargo de Sócio-Gerente e simultaneamente é a responsável pedagógico pela área escolas – Natura Escolas.
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A empresa que gere apostou num tipo de turismo que não é o mais comum no Algarve, onde a prevalência se situa na receita sol e praia. Porque razão apostou nessa via?
R: O sol & praia tem e terá uma responsabilidade enorme no que diz respeito à identidade do Algarve enquanto destino turístico. De facto temos excelentes praias, hotéis e óptima comida. Somos relativamente baratos (cada vez menos) e temos um clima que faz inveja a qualquer país na Europa.
A questão é que é redutor olhar para o Algarve puramente numa perspectiva de praia e produtos/serviços associados.
Além dessa excelente praia, temos serra e as suas tradições, gastronomia e produtos regionais, o Baixo Guadiana e as questões relacionadas com a pesca artesanal, trocas comerciais e seu património histórico e, obviamente, a Costa Vicentina ou a ria Formosa, ambas com um potencial enorme no que se relaciona com o património ambiental.
O Algarve tem história, tem pessoas que continuam a depender do medronho e da cortiça, tem lugares mágicos ainda por descobrir… É esse o nosso desafio: saber mostrar esse segredos e conseguir preservá-los, dando um sinal de confiança e esperança ao Sr. João de Furnazinhas, que assiste a uma assustadora desertificação da sua aldeia para junto do betão, onde há mais trabalho e oportunidades.
Orgulhamo-nos da aposta num turismo responsável que se alicerça nestes valores. Acreditamos que é um dever mostrar esta realidade às pessoas que lhe atribuem valor. Pode não ter o mesmo retorno, do ponto de vista financeiro, que uma visita aos mercados very tipical com um autocarro cheio, mas pessoalmente considero mais gratificante e sei que cada um dos nossos clientes se vai tornar agente activo de promoção turística deste “outro” Algarve e da própria empresa – Natura Algarve.
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Quais as mais valias que a região algarvia oferece para poder sustentar uma procura para esse tipo de turismo?
R: Uma das nossas mais-valias é o nosso atraso em relação ao resto da Europa.
Quando me refiro ao “atraso” como mais-valia, falo obviamente de uma faca de dois gumes… Mas a verdade é que esse gap relativamente a países mais desenvolvidos pode ser também considerado como uma oportunidade.
Basta olhar para a procura que existe neste momento na Costa Vicentina por parte do mercado espanhol. Nesta localização ainda é possível descobrir recantos quase intactos que já há muito desapareceram da Costa Brava ou Costa do Sol, bastante desgastada pela procura e subsequente oferta turística e imobiliária.
Mas há mais: factores com o clima, a acessibilidade / proximidade em relação a alguns países, a qualidade, segurança… são mais-valias.
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Pode indicar o conjunto de actividades que mais procura têm?R: O passeio de dia inteiro na ria Formosa, com desembarque na ilha da Barreta (Deserta), Culatra e na barra da Armona, um dos locais mais bonitos e exclusivos na nossa ria. Neste momento também estamos a ter uma procura grande no passeio curto – Shuttle para ilha do Farol e ilha Deserta, a partir de Olhão.
ADF - Para além da oferta actual, têm projectos para, no futuro, alargarem esse naipe a outras actividades?
R: Sim. Neste Verão iremos lançar dois novos produtos: um passeio curto entre Olhão e ilha Deserta, com várias saídas diárias a partir de Olhão. Passa a ser possível chegar à ilha da Barreta a partir de Olhão através de um passeio com guia que fará a contextualização do Parque Natural da Ria Formosa. Isto apenas por 10 euros!
Outra grande aposta será na observação de golfinhos e vida marinha. Teremos saídas diárias durante o Verão e várias vezes por semana no resto do ano.
Iremos ainda reforçar a nossa oferta para grupos – festas de aniversários, despedidas de solteiros e solteiras, prendas especiais…
ADF - O equilibro natural e harmonia paisagística do Algarve, tem sido gravemente afectado nas últimas três décadas, principalmente a nível da zona costeira. Se essa dinâmica prosseguir, não teme que o futuro do turismo da natureza e cultural, possa ficar comprometido?
R: Sim, temo. Penso nesse tema várias vezes e assusta-me que ainda tenhamos uma atitude pouco responsável com todas as questões relacionadas com o nosso passado e cultura, que têm uma relação directa com o território em que vivemos. Penso que ainda não existe uma massa crítica com força para ser ouvida e isso tem de ser analisado na perspectiva histórica e cultural do nosso país.
A falta de informação e formação é enorme e estamos perante mudanças que levarão o seu tempo para que tenhamos uma sociedade civil mais exigente e fiscalizadora… mais interveniente! Com menos Fado, Futebol e Fátima.
ADF - De que modo é que este tipo de turismo pode contribuir para o desenvolvimento económico das populações, da sua afirmação da sua cultura e identidade e para a sua fixação nas zonas de baixa densidade?
R: Essa é uma questão delicada, mas é bom que se fale cada vez mais nela.
Segundo a Sociedade Internacional de Ecoturismo (International Ecotourism Society) o Ecoturismo deve seguir os seguintes princípios:
1- Provocar um impacto mínimo
2- Contribuir para um desenvolvimento / reconhecimento ambiental e cultural
3- Proporcionar experiências positivas para visitantes e populações locais
4- Proporcionar benefícios directos para a conservação
5- Proporcionar benefícios financeiros e emprego para populações locais.
6- Contribuir para um aumento da sensibilidade política para um clima social e ambiental mais consciente
Acredito que existem poucas empresas a preencher todos estes requisitos.
Com estes elementos posso afirmar que somos pioneiros no Ecoturismo no Algarve. Actualmente existem mais empresas que optam por comunicar esta estratégia. Resta saber se a cumprem efectivamente…
Ora vejamos ponto por ponto:
1- Impacto mínimo não significa não poluir. Turismo implica viajar. Desde logo estamos a poluir!
Um carro ou barco eléctrico só por si não é garantia de emissão zero. Baterias, tintas, resinas e outros materiais são poluentes. Poluir zero não existe no turismo. Devemos ter em atenção a publicidade enganosa!
Quero com isto dizer que podemos e devemos optar por estratégias para diminuir emissões, mas que um barco a motor com um índio a subir o Amazonas para observar toda a diversidade de flora e fauna, com paragem numa aldeia onde podemos deixar alguma coisa (roupa, dinheiro, fotos, perfumes… ou simplesmente … felicidade) é ecoturismo. Andar de segway por andar não implicado que estejamos a contribuir para causa alguma… estamos apenas a não poluir…
Podem encontrar mais informação sobre ecoturismo em
www.ecotourism.org2- A contribuição para o reconhecimento e desenvolvimento ambiental e cultural de um destino pode ter várias dimensões. A comunicação social é um bom veículo de informação, mas não é o único. Redes sociais, capacidade de influenciar consumidores e penetração no mercado podem contribuir de forma positiva para que um destino seja reconhecido pelo seu estado de conservação, biodiversidade, exclusividade, inacessibilidade e obviamente pelas suas gentes.
3- Acredito que estamos perante um cenário difícil. No entanto tenho a opinião que é possível fazer negócio com preocupações reais com as comunidades locais. Vejo demasiadas vezes empresas que utilizam este argumento apenas como uma estratégia de green marketing… mas saber dos problemas, conviver, dar e receber das pessoas locais… para elas, isso fica para mais tarde. É fácil perceber se a empresa tem um papel activo numa determinada comunidade. Basta observar a relação que as pessoas da empresa têm com as pessoas locais…
4- Benefícios directos para a conservação… Dar dinheiro, participar, contribuir. É bonito dizer que se faz, mas efectivamente fazer. Nós contribuímos com 5% da facturação em todas as actividades da Via Algarviana. É pouco, mas a verdade é que, segundo o meu conhecimento, só existem três empresas que o fazem no Algarve: We2Win, MegaSport e Natura Algarve.
Gostava que assim fosse com as actividades na ria Formosa. Questões burocráticas dificultam esta estratégia. Esperemos que no futuro mais portas se abram para uma melhor e maior cooperação com o ICNB / Parque Natural da Ria Formosa.
5- Empregabilidade e contributos directos… O Zarica, a Teresa, o Rui na Culatra, Alfarrobinha, Restaurante Ti Bia no Barranco do Velho, o Luís Borges do barco do Guadiana – Alcoutim, O Renato em Olhão… entre outros locais por onde vamos passando e deixando alguma coisa. É pouco! Gostaríamos que fosse mais, mas já é alguma coisa… temos uma perspectiva de cooperação para quem olha para nós como cooperantes.
6- Sensibilidade política! Penso que 80% dos partidos são as pessoas. Uma das melhores virtudes é saber ouvir!
Os dados estão na mesa e as estatísticas também. Saber usar esses dados é uma arte que não está ao alcance de todos. Não pela inacessibilidade, mas por uma questão histórico-cultural, de valores e prioridades. Enquanto todos nós não percebermos que a ria tem muito mais além da excelente praia, enquanto as motos de água passarem a fundo entre um barco com 10 turistas com binóculos que observam aves e um bando de colhereiros, enquanto a ponta do cigarro for para a água… será difícil identificar este lugar mágico com o estatuto que ele merece. Está nas nossas mãos! Eu acredito.
Importa identificar objectivos e ser coerente com as nossas estratégias.
Nos últimos tempos fala-se bastante do turismo da natureza, da observação de aves. Se é realmente importante, devemos tomar atitudes relativamente ao uso que fazemos desta área protegida. Ou então que se assuma de uma vez por todas que podemos continuar a ver motas de água a 60 nós a fazer Deserta-Faro em 5 minutos…. E que este é um excelente local para bater recordes.
Não é consensual e certamente haverá gente descontente… Mas para sermos bons numa coisa temos que assumir uma estratégia, um caminho. Muitas vezes poderá colidir com o interesse de tudo e de todos.
O POOC poderá ser uma ferramenta de trabalho se for analisada com ponderação. Uma coisa é certa: nunca será consensual. Conquistámos um espaço que está nos limites da sua capacidade de carga, e agora…. É necessário fazer alguma coisa se queremos continuar a ter cavalos-marinhos na ria. Ou então que se assuma de uma vez por todas que não precisamos dos cavalos-marinhos para nada… Agora se é para fazer alguma coisa, que se faça já, apesar da onda de protestos que certamente surgirá e já está a surgir.
É fundamental termos a Carta de Desporto de Natureza aprovada e era muito positivo que Sociedade Polis, Capitanias, IPTM, Autarquias, Universidade do Algarve e empresas se juntassem para informar, informar e informar. Quanto a uma das causas é a falta de informação, porque se a causa-efeito fosse devidamente (em intensidade e densidade) propagada, teríamos espaços mais limpos, mais dignos e apetecíveis. E para quem não cumpre sempre resta a penalização.
entrevista realizada por Fernando Silva Grade