Joana Celine Guerreiro é licenciada em Arquitectura do Planeamento Urbano e Territorial pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa, UTL.
Frequentou várias formações profissionais em várias partes do mundo, entre as quais se destacam: cooperação para o desenvolvimento na Bélgica; desenho e construção de arcos, abóbadas e cúpulas no Earth Institute em Auroville na Índia; rebocos à base de cal no Centro de Formação Terre et Lumiére em Bise, França.Profissionalmente tem colaborado com vários arquitectos em Portugal e no estrangeiro e é gestora do projecto domusmateR ®.
ADF - Qual foi o principal objectivo desta iniciativa de caiação colectiva em Cacela a Velha?
JG – Foi o de criar uma oficina de sensibilização dirigida à população, aos dirigentes políticos e aos proprietários de prática da caiação, pretendendo ensinar sobre a cal e a sua técnica. Esta acção apelou ao emprego da cal na salvaguarda do património edificado de Cacela Velha, pois preserva o ambiente e é fiel aos revestimentos.
Foi em torno de uma prática ancestral, que promovemos a valorização e dinamização do antigo cemitério situado no perímetro da Cerca Moura.
ADF - É a primeira vez que se realiza uma iniciativa deste género no Algarve?
JG - Foi a segunda vez que a domusmateR® juntamente com a “caiar-te!” promoveram a reabilitação. E porque o resultado foi positivo, estamos atentas a outras realizações do género; os municípios que ainda têm património edificado caiado, devem agir para a sua salvaguarda, em prol das gerações futuras. Para além de ser uma operação de embelezamento que valoriza o conjunto, é uma proposta inovadora que fazemos, pois, trata-se de transmitir conhecimento e uma cultura que é rica.
ADF - Na tua opinião como foi possível que o uso da cal, tão arreigado na cultura algarvia, pudesse, em poucos anos, praticamente desaparecer?
JG - A partir da altura em que os transportes permitem distribuir mercadorias por toda a rede, surgem as novas soluções como o cimento, surge a noção de “rapidamente” e sem restrições (dinâmica imperial!). Infelizmente, esta escolha da modernidade, incentiva o desmantelar, pouco a pouco, dos fornos de cal que existiam por todo o Sul de Portugal e, com eles, a perda de um material de proveniência local e de uma tradição constituinte da cultura! É um facto que o emprego da cal requer tempos de maturação e de secagem mais alargados e o conhecimento profundo do processo, por razões de segurança e de eficácia.
ADF - Aqui em Cacela Velha, que constatei estar profundamente descaracterizada, a população não se mostrou muito interessada e sensibilizada pela acção de caiação. Em Alte como reagiram os seus habitantes?
JG – Acho que foi boa a iniciativa e foi edificante! Desenrolou-se num circuito turístico; as pessoas passam e param e no geral compreendem bem as vantagens da cal na reabilitação do património vernacular; relatam as suas crenças e estórias; apoiam-nos explicando como se fazia, como fazer. Afinal, é uma solução económica que apela à participação e faculta emprego!! Devemos continuar!
Em relação aos municípios, a acção foi bem recebida. Contudo, devo confessar, que neste sector pouco preocupado com detalhes, a mensagem pode ter ficado aquém das expectativas, sendo necessário mudanças na sua consciência e sensibilidade. Quanto muito, pôde fazer-se cidadania activa. Os meus agradecimentos às Juntas de Cacela e de Alte e aos municípios respectivos, que nos apoiaram.
ADF - Ainda se encontram operários no activo conhecedores das várias tecnologias tradicionais em torno da cal e sucedâneos?
JG - Sim e não. Felizmente em Portugal os pedreiros são excelentes, sabem aplicar as argamassas com brio, sabem rebocar! O que esqueceram foi como preparar e fazer o uso da cal aérea obtida a partir da pedra mas, apesar disso, um projecto de renascimento é viável a longo termo, mais viável aliás, do que noutros países da Europa em que certas práticas tradicionais se perderam de todo.
As técnicas de emprego da cal aérea na construção civil devem renascer. Alerto para o facto de que, salvo em casos raros, as cais que se compram não se adequam às paredes antigas; as hidratadas não são duráveis e as hidráulicas aproximam-se do cimento, que é rígido e não deixa respirar as paredes.
Quanto ao acto de caiar, ele aparece aos pintores como algo totalmente antiquado, uma vez que é preciso saber preparar a cal. Não existe quem queira fazer esse trabalho e as populações, sobretudo as mulheres, que o faziam não acham que esse saber é digno de ser transmitido. Eu diria que há um problema de conhecimento e de imagem da cal.
ADF - E qual é a receptividade das empresas e firmas ligadas à construção relativamente a estes materiais tradicionais?
JG - Estamos num mundo hiper-concorrencial, em que as exageradas rentabilidades impõem as condições estreitas nas quais operam as pequenas empresas. Em Portugal mais de 97% das empresas do sector da construção tem menos de 20 trabalhadores.
Por outro lado existe falta de transversalidade entre a investigação e o mundo empresarial. É fundamental estabelecer essas pontes! É difícil e ingrato pois as soluções a aplicar negociam-se, devendo o arquitecto, o cidadão e o dono de obra apressar-se a saber escolher a implementação das soluções adequadas face à pressão concorrencial.
Penso que no sector da reabilitação, o interesse pela cal deve surgir, pois, é o único que permite legar às gerações vindouras superfícies autênticas.
ADF - Existe da parte das entidades municipais alguma nesga de sensibilidade relativamente a este problema do desaparecimento da cal com a consequente descaracterização dos cascos urbanos tradicionais?
JG - A tarefa dos municípios na promoção do património deve ser revestida de uma maior seriedade, pois estes devem traçar o caminho para a evolução, tomando as decisões e servindo de suporte para agir. São os municípios que sustentam as políticas de salvaguarda, aprovando perímetros de protecção e regulamentos municipais específicos de cada lugar e de cada riqueza construtiva. São eles os responsáveis pela definição de áreas de reabilitação urbana que estão na base da implementação de uma política governamental que confere fundos, leis e instrumentos de gestão urbanística, como nunca existiram antes.
Penso que o desafio é enorme, porque um em cada quatro fogos portugueses encontra-se abandonado e os municípios devem dotar-se de capital humano, técnico e científico para encontrar soluções viáveis e, por outro lado, serem capazes de incorporar novas dinâmicas como o envolvimento cívico das populações e dos grupos de interesse, para que de um modo geral, se facilite a implementação de boas práticas e a longo termo a revitalização dos lugares. Enquanto habitantes e cidadãos devemos exigir o reconhecimento e o respeito pela Carta de Veneza, entre outros textos, que definem estratégias para a conservação e restauro do património edificado.
Concretamente, a domusmateR® defende a criação de “bancos” de pasta de cal em cada sede municipal.
ADF – E como explicas que também a população mais esclarecida e culta seja tão insensível a esta perda cultural, estética e simbólica?
JG - Julgo que nem todos sejam insensíveis. Afinal, qualquer edifício, classificado ou não, revela as nossas facetas! Acho que existe uma generalizada falta de acesso à informação de qualidade e, em consequência, a falta de crítica. Impotentes, assistimos aos pastiches, às tendências custosas e às transfigurações inesperadas. Perdeu-se o autêntico.
Importa-me ponderar a questão cultural e ensinar que a cal é pedra, foi inventada como tecnologia há 7000 anos e é um material muito belo.
ADF - Sei que tens um projecto denominado Domus Mater, precisamente centrado nas tecnologias de construção tradicional. Podes-nos explicar os objectivos e o alcance pretendido com esse projecto?
JG – Achei que devia agir pela integridade das alvenarias, porque estão a desaparecer e importa implementar a renaissance da cal aérea. O ano passado surgiu a domusmateR®, para fomentar a implementação de materiais e técnicas tradicionais nos projectos e nas obras de reabilitação. Surgiu como marca registada, propondo soluções adaptadas às alvenarias antigas e é promovida por Joana Guerreiro, arquitecta na especialidade de planeamento urbano e territorial desde 2002. Procura ir ao encontro das necessidades dos clientes, prestando acções de formação práticas e sessões de esclarecimento sobre os rebocos de pasta de cal, as caiações bem como os pigmentos. Podem ver no blogue http://domusmater.blogs.sapo.pt/
É um atelier de arquitectura, urbanismo e paisagismo, que promove o reconhecimento das tecnologias pacíficas, praticando a defesa do vernacular e da compatibilidade dos materiais. Joana Guerreiro cria o conceito de tecnologia pacífica e de Slow building, em acções de conhecimento para a revitalização da imagem da cal aérea, da taipa, do adobe e da cerâmica na eco-construção:
Skype: Joana Celine
Email: domus.mater@sapo.pt
Blogue: http://domusmater.blogs.sapo.pt/



7 comentários:
Fabuloso. Bem-vindos à idade da cal.
Pois de certeza que não pediram a devida autorização ao IGESPAR, senão não seria assim tão fácil.
Se tiverem curiosidade para perceber como se devem fazer as coisas é só seguir este link.
http://www.youtube.com/watch?v=C2qb28dE5sE
Farense vencido pela burrocracia
Eh pá, Pelos vistos o Grade estava a falar verdade quando disse que não era o único a defender a cal! E ainda bem!!
São pessoas como estas que nos fazem acreditar no futuro e no renascimento da nossa cultura!
Muito bem Joana, força no seu desígnio de fazer renascer uma tradição tão bonita como é a caiação!
Realmente é inacreditável como chegámos a esta situação em que a principal referência do Algarve, a cal, está praticamente moribunda.
Que diabo de autarcas tivemos nós nestes últimos 30 anos que deixaram que isto acontecesse?! Não houve um único que percebesse a importância da cal para a nossa identidade e imagem. Nem sequer perceberam como isso era importante para o turismo.
E quantas pessoas como a Joana tiveram a sensibilidade para perceber a destruição em curso e a determinação para lutar contra essa maré que tudo arrasou? Muito, muito poucas!
O Algarve bem precisa de uma nova geração, consciente dos valores culturais e determinada a desenterrar dos escombros os cacos que ainda restam da hecatombe dos últimos anos.
Parabéns pela entrevista
André
Parabéns pela iniciativa. No fim de semana passado levei os meus filhotes ao Mercadinho de Verão a Cacela Velha e foi uma agradável surpresa, não só pelo ambiente proporcionado pelos produtos tradicionais apresentados, pela música ambiente ou ao vivo, mas por toda a envolvência visual, num ambiente urbano muito arranjado e sobretudo caiado. Até mesmo alguns atropelos, vulgo “galinheiros” ou acrescentos menos conseguidos, acabaram integrados no restante tal é a capacidade estética e plástica da cal. Senti-me muito bem naquele lugar e constatei que quando viajo é exatamente aquela sensação que procuro, a identidade do povo, o seu vernacular,os seus valores, as suas origens. Gostei bastante e mais uma vez os parabéns pela iniciativa da caiação. Contudo não se conhece um povo apenas sabendo o que ele foi. “não há bela sem senão”. E não podemos falsear a história sob pena de no futuro não se saber o que hoje somos. Se por um lado o que outrora fomos está hoje comprometido por toda a ação desastrosa que fizemos, ainda muito há a fazer e estou certo que podemos restituir essa verdade histórica. Há muito património a caiar, muita reabilitação a realizar e outras tantas reabilitações mal executadas que deviam voltar ao seu revestimento original. E não se trata de caiar sobre tinta, trata-se de restituir o lugar desse património na nossa história, dignificá-lo, dignificando-nos. Contudo, se daqui a 400 anos um grupo de arqueólogos tentasse perceber o que somos hoje, erraria por décadas, tal é a quantidade e fraca qualidade do pastiche que por aí há.
Hoje temos tecnologias construtivas completamente distintas das de outrora e portanto temos desafios completamente diferentes para resolver. Até relativamente à evolução dos estilos de vida, das expectativas de conforto, à própria evolução da estética, da sociedade, etc...
Portanto como em tudo na vida há que haver um ponto de equilíbrio. Reabilitar e restituir a dignidade ao que de facto é património, mas não falsear a nossa atualidade fazendo vista grossa a tudo aquilo que até aqui conquistamos. Se por um lado conhecemos um povo pelo que foi, colmatamos esse conhecimento sabendo o que hoje é.
Miguel Caetano
poderei eu dizer que com espanto e surpresa que foi o que o eng-Macário Correia presidente da Camara municipal de Faro fez aos muradores dos bairros sociais e falando mais propriamente no Bairro da Atalaia onde os moradores que vivem a mais de 50 anos nesse mesmo bairro com renda baixa é verdade e agora sem 1 minimo de humanismo o sr. macário Correia aumentou as casas em mais de 400% quem pagava 5-10-ou 60 euros foram aumentados em 300 380 e 410 euros esquecendo-se que metade destas pessoas já pagaram as casas a muitos anos com o pagamento das rendas em 50 anos de morar nelas é lamentavél que isto esteja a acontecer já não basta o governo central estar a matar o povo á fome e o sr. Macário Correia segue a mesma linha que o seu chefe do PSD p.Coelho que é matar as classes mais pobres a fome
Enviar um comentário