João António Santos, 58 anos, beirão de Gouveia (Serra da Estrela), residente no Algarve desde 1979. Biólogo e professor do ensino secundário. Casado, pai de dois filhos já maiores de idade (Martim e Morgana). Vive em Loulé, exclusivamente do seu trabalho, sem outros rendimentos, mordomias ou tachos.
1 - Foste o fundador da Almargem no ano de 1988. Também tens ocupado o cargo de presidente a maior parte destes anos.
Que balanço poderás fazer nesta altura ao trabalho da associação nestes quase 25 anos de actividade?
Acho que o balanço é positivo pois a Almargem tem procurado dar voz às questões ambientais que, numa região completamente virada para um modelo de desenvolvimento turístico muito pouco sustentável, foram quase sempre subalternizadas. Houve mesmo alturas em que fomos acusados de sermos uma força de bloqueio anti-Algarve, o que é injusto pois o que sempre procurámos fazer foi defender os principais valores do património cultural e ambiental desta região contra interesses particulares e especulativos que não olham a meios para conseguir o que querem. Por outro lado, principalmente nos últimos anos, temos implementado projectos que contribuem directamente para o desenvolvimento de áreas economicamente pouco favorecidas e desertificadas, como é o caso da Via Algarviana que atravessa todo o interior algarvio.
2 – Quais as principais dificuldades com que a associação se debateu nestes anos de funcionamento?
No início uma grande incompreensão, poderei mesmo dizer desconfiança, quanto à utilidade e ao papel fundamental que uma ONG ambiental pode desempenhar nesta região. Depois, uma tentativa de trazer a Almargem para o lado institucional, bem comportado, da sociedade, o que, a nível associativo interno, nem sempre foi olhado de forma pacífica. Para além disso, e ao contrário do que muita gente pensa, temos tido sempre uma crónica falta de meios financeiros para desenvolver as actividades mais consentâneas com o nosso estatuto de organização ecologista, em paralelo com uma crescente falta de empenhamento dos sócios nas tarefas associativas.
3 – A Almargem desenvolve um conjunto de actividades, algumas das quais envolvem um número alargado de pessoas. Podes descrever essas actividades?
A actividade que realizamos desde o início e sempre com bastante adesão dos sócios, têm sido as caminhadas e percursos temáticos de observação da natureza. Isso tem-nos permitido conhecer de perto a realidade ambiental algarvia, para além de motivar algumas pessoas, infelizmente, como disse, cada vez em menor número, a empenharem-se noutras funções dentro da associação. Também a criação há uns 15 anos do Centro Ambiental da Pena (Salir, Loulé), possibilitou o envolvimento, que tem sido crescente, das crianças e jovens algarvios nas actividades de educação ambiental que aí realizamos, com o apoio do município.
4 – A Almargem também está ligada à concretização de projectos em várias áreas. Podes referir alguns desses projectos?
Podemos dizer que a Almargem tem sido pioneira em muitas áreas. Começámos a fazer caminhadas pela natureza quando quase ninguém mais o fazia no Algarve. Fomos os primeiros a dinamizar no Verão espaços do centro histórico de Loulé com momentos de animação cultural e musical, quando ainda ninguém pensava em Festival MED ou Noite Branca. Lançámos ideias e concretizámos iniciativas em outras áreas (energias alternativas, biodiesel, vigilância florestal, educação ambiental) que contribuíram para sensibilizar as entidades competentes para a importância de desenvolver acções ou projectos de maior dimensão e com outros meios. Sempre defendemos alternativas ao turismo de sol, golfe e praia (ecoturismo, birdwatching), o que só nos últimos dois anos foi reconhecido como útil pelas instituições regionais. Procurámos, ao longo do tempo, evidenciar as potencialidades dos espaços naturais da região e, em particular, do interior algarvio, quase sempre ignorados pelos poderes públicos.
5 – Tem-se verificado que a Almargem tem estado, nos últimos anos, menos interventiva a nível da denúncia das muitas situações que infelizmente atentam contra o ambiente e o património no Algarve.
Qual a razão dessa situação?
Nos últimos anos, muitas das energias dos poucos militantes e dirigentes da Almargem têm sido canalizadas para a concretização de projectos institucionais como a Via Algarviana e a Educação Ambiental. Isso tem provocado efectivamente uma menor presença nas várias lutas ambientais que se têm desenrolado na região. Não por nos termos “vendido”, como alguns nos acusam, mas simplesmente porque nos faltam forças e meios humanos para fazer melhor. Reconheço isso como extremamente negativo e considero esse o grande desafio da actual Direcção, eleita há poucos meses atrás. Conseguir conciliar uma estrutura de colaboradores remunerados, que embora sejam sensíveis às questões ambientais têm sobretudo de se dedicar a projectos concretos em várias áreas (e que actualmente conta já com uma dezena de pessoas, quase uma mini-empresa…), com o regresso ao espírito e à dinâmica associativa inicial, que nos permita intervir, de forma mais constante e sem amarras, nas várias situações de conflito ambiental.
6 – Neste momento, aquilo que se poderá passar nas ilhas barreiras, nomeadamente na Praia de Faro, em consequência do programa Polis, prende a atenção da população. A perspectiva da demolição de um número muito grande de casas (mas não de todas), é uma possibilidade que está em cima da mesa. Ouve-se também falar de uma duna gigante a elevar na zona da duna primária. E depois ainda há a questão dos pescadores.
Na tua opinião, e em função de todos estes elementos, quais as soluções apropriadas para este problema tão sensível?
A minha opinião pessoal é que muito do que está previsto não faz qualquer sentido. Arrasar núcleos como os Hangares que estão mais protegidos no interior da Ria e deixar de pé zonas de alto risco como parte do Farol só porque estão no domínio da Capitania, ou deitar abaixo casas de pescadores na Praia de Faro, poupando prédios de dois ou três andares que aí existem, nada disso tem lógica quer do ponto de vista ambiental ou social. É evidente que, à partida, nenhuma construção devia ter sido permitida nas ilhas-barreira (exceptuando casas ou abrigos de pescadores/ mariscadores e equipamentos de interesse geral como faróis, apoios marítimos e de praia, etc.). Quer se queira admitir ou não, as ilhas-barreira irão, um dia (daqui a 50 anos ou já amanhã, quem o sabe) ser afectadas pela subida do nível médio do mar ou simplesmente riscadas do mapa por um tsunami associado a um terramoto oceânico. E toda a gente “responsável” prefere assobiar para o lado e gastar milhões em projectos de requalificação e em intervenções de reforço das praias. De uma vez por todas, dever-se-ia olhar para as ilhas-barreira como um local maravilhoso mas de grande risco ecológico, capaz de ser utilizado pelo homem mas sempre com as devidas cautelas.
entrevista realizada por Fernando Silva Grade